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Acontece com todo mundo. Um dia, você acorda meio atravessada, maldormida e, ao encarar o espelho, se assusta. Quem é essa estranha criatura refletida à sua frente? O olhar, embora sonolento, não deixa escapar os sinais das pálpebras inchadas e examina, implacável, os cabelos arrepiados. No chuveiro, o auto-exame não dá trégua: pneuzinhos demais, curvas de menos, seios fartos mas não muito firmes... E o que dizer daquela barriguinha insistente, da celulite mais do que visível - ainda que só para você - e das abomináveis estrias que descem pelas coxas rumo a lugar nenhum? O caso parece da maior gravidade. Ou da tal lei da gravidade. E a impressão é de que só mesmo um milagre ou, quem sabe, uma fada madrinha - com poderes suficientes para transformar você em Cinderela - são capazes de dar um jeito nessa situação. Um cirurgião plástico também seria bem-vindo. Desde que fosse um daqueles bem famosos, cobiçados, competentes, concorridos, simplesmente o máximo no manejo do bisturi e que, imagine só, atendesse, sem nenhum custo adicional, pelo seu convênio médico. Como ambos não existem - nem a fada nem o tal cirurgião generoso -, você pragueja, rosna alguns impropérios e depois se acalma: veste a primeira roupa que vê pela frentee - fazer o quê? - sai com celulite e tudo rumo ao trabalho.
Quem de nós já não teve um despertar assim? Um ataque súbito e, na maior parte das vezes, superdimensionado de consciência corporal, seguido de uma dolorosa preocupação com o que vemos e, pior, com o que imaginamos que os outros vêem e pensam sobre nós. Por só conseguirmos enxergar os tais defeitos, eles tomam proporções exageradas e, com freqüência, desabilitam alguns recursos interiores que possibilitariam que reconhecêssemos e valorizássemos nossos pontos mais fortes, aqueles que dão equilíbrio à imagem, definem perfil e são fundamentais para a integridade física e emocional.
Nessas horas parece difícil não sucumbir a uma velha armadilha, tão antiga quanto ineficiente: a da vitimização. Se não somos desse ou daquele jeito, a culpa é da nossa herança genética (que não nos favoreceu), da falta de dinheiro, da sobrecarga de trabalho, dos muitos compromissos com a família e de tudo o mais que absorve nosso precioso tempo. Você pode passar o resto de seus dias ancorada nesse mar de lamúrias, aperfeiçoando o tipo mater dolorosa. Mas pode também dar a volta por cima: arregaçar as mangas, traçar metas, exorcizar a preguiça e alcançar seus objetivos vertendo suor em vez de lágrimas. Essa escolha depende totalmente de você. Da dieta alimentar às horas de malhação na academia; do relaxamento físico e mental ao enrijecimento à base de musculação; da opção pela terapia ortomolecular à perfeição conquistada pela lipoescultura; agora ou depois, pegar ou largar, tudo depende de seu empenho e de sua capacidade de tolerar, ainda que temporariamente, algumas inevitáveis frustrações. Claro, ninguém ganha um corpo escultural, um andar lépido ou um estado quase zen de equilíbrio emocional deitada num sofá se deliciando com sanduíche, pipoca, chocolate e refrigerante.
É Preciso, em primeiro lugar, portanto, responder à dúvida com decisão: quero mudar ou não quero? Depois, encarar com firmeza e disciplina as iniciativas. Não basta existir Ivo Pitanguy, você tem de ir até ele; academia a dois quarteirões da casa ou do trabalho só funciona se você se mexer; grupos de apoio para emagrecimento não servem para nada se você não seguir à risca tabelas, cardápios, sugestões, controlando a ansiedade e tolerando algumas privações. Virar o jogo também requer prática e habilidade. É tarefa que envolve três etapas fundamentais: a identificação de oportunidades, a moderação para optar pela mais adequada e, por fim, a persistência - aquela teimosia saudável que nos faz seguir na direção reta e direta da realização.
Tudo começa com um simples pensamento. O que se vê por fora é reflexo do que há por dentro - uma idéia, um modelo mental. É aquela coisa da tal beleza interior? De fato ela existe e está associada a um estado de espírito positivo, de uma energia alegre, de alto-astral, mas também de algumas atitudes. Sabe aquele ditado: "Você é o que você come?" Continua atualíssimo. Portanto, não tente se enganar: a beleza começa pela boca. Se você é daquelas que não conseguem fugir das tentações do fast-food, do instantâneo, do ligeiro descompromissado e do congelado, pare e preste atenção nessas palavras, tentando perceber a sensação que elas provocam.
Comida deveria ser sempre quentinha, comprometida com o sabor e a alquimia do preparo, para ser apreciada sem pressa, em boa companhia. Sou do tempo em que se disputava o arroz com feijão da vovó e guardo comigo a lembrança inesquecível do pudim de leite de minha mãe. Sabores para sempre frescos, nada fast e congelados apenas no sentido de uma doce recordação. Sei que é pedir demais para uma musa moderna encarar a enfadonha tarefa de pilotar fogão - eu mesma tenho fugido dele como o diabo da cruz. No entanto, neste mundo de conveniências, é possível, sim, cuidar da alimentação sem sacrifícios, valendo-se de boas doses de informação, equilíbrio e tenacidade. A mudança de hábito, além de ajudar na boa forma, traz, de quebra, benefícios à saúde. E isso, realmente, é o que mais importa. Quanto à tal obsessão padronizada que clama por manequim 40, 38, 36 ou seja lá o que for - por Deus, me poupem! -, é coisa de adolescente que ainda não sabe qual é o seu papel no mundo. Mude, melhore, experimente-se, surpreenda-se, faça, enfim, o que quiser. Mas tome muito cuidado para não se transformar numa caricatura mal-acabada de si mesma. Respeite seu equilíbrio e suas proporções. Tudo bem fazer um retoque aqui, outro ali, arrumar um nariz não tão harmonioso com o rosto ou aprimorar o que Deus lhe deu. O perigo está no exagero, na vontade de se manter jovem a qualquer preço mesmo que o resultado seja desastroso: rosto sem expressão, olhos esticados, lábios inflados. A vaidade sem limites acaba se tornando um fardo, porque nunca se satisfaz.
A questão também não se resume aos tais padrões de beleza, porque padrões mudam facilmente, a toda hora. Para o verdadeiramente belo, não existe tamanho único ou referência universal. Os brasileiros sempre foram loucos por bumbum generoso, os americanos cultuam seios fartos, os chineses admiram pés delicados... Bem-aventurado o respeito às diferenças! Cabe a cada mulher, portanto, ser o que bem quiser.
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